Por Jacson Lusa
O tempo parece um mágico… Usa a rotina dos nossos dias como cortina ilusória, e no palco da vida ilude nossa percepção para consumir os dias e anos sem que a gente perceba.
Depois que 20 anos se passaram, voltei lá naquele hotel em Caxias do Sul, onde trabalhei, fiz amigos, construí lembranças, e onde aprendi muito. Voltei pela insana vontade de rever as pessoas, ouvir histórias, rever as coisas e matar saudades…
Quando cheguei, o avistei ainda de longe. A arquitetura que me encantou pela primeira vez que pisei naquele lugar ainda me causou brilho no olhar. Ao se aproximar pelo caminho fui avistando o jardim, que muito cuidei, e até me pareceu que ele sentia minha falta, pois o capim estava alto em meio às flores…
Grande foi minha surpresa ao se dirigir para a porta principal, onde a placa de recepção parecia me convidar a entrar. Tentei girar a maçaneta, mas a porta estava trancada. Até aí tudo bem, pois várias foram as vezes, quando trabalhei na recepção, em que deixávamos a porta trancada para ajudar o pessoal da cozinha.
Os hóspedes que chegassem e se deparassem com a porta fechada tinham duas opções: fazer soar o sino de bronze que havia junto à porta, ou apertar a campainha… A grande maioria preferia a sonoridade do sino.
Não achei a campainha e o sino estava sem o badalo… Coloquei as mãos junto ao rosto para focar o olhar pelo vidro da janela, tentando avistar alguém, e meu olhar se deparou com um cena triste… Só avistei os móveis, sem decoração, sem arranjos de flores, não haviam pessoas, não havia mais alma, apenas móveis… No móvel comprido que servia o buffet do renomado café colonial e o jantar italiano, não havia nenhum sinal do último jantar servido…
O tempo agitou rápido a cortina da rotina, para que eu não percebesse os dias se irem, e quando encostei a testa na janela para ver o que se passava lá dentro, incrédulo, percebi que não havia mais nada…
São apenas 20 anos! Parece muito, mas para um hotel que foi referência desde 1927, parece mágica, parece um piscar de olhos… O gigante lindo, empoderado, está lá, mas está sem maquiagem, sem luz, sem alma…
Se você gosta de um lugar ou de uma pessoa, não deixe o tempo te iludir, não deixe de visitar, de viver, de estar presente. Pois pode ser que no dia que resolver abrir os olhos ou dar atenção, sinta o que senti ao olhar pelo vidro… Pode ser que já não haja mais nada daquele encanto que fez teus olhos brilharem…


