Por Jordano B. Girondi – Presidente da Associação Garibaldense do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural (Agaphac)
No dia 18 de novembro, o vereador Lívio Antonio Bortolini apresentou a Indicação 72/2025, por meio da qual sugeriu ao Poder Executivo municipal a “requalificação urbana da Rua Buarque de Macedo, no trecho compreendido entre a Avenida Independência e a Rua Júlio de Castilhos”. A alteração proposta pelo legislador consiste na implantação do chamado “pavimento compartilhado”, com o nivelamento entre as calçadas e o leito da rua.
No texto do projeto, foi mencionado que a alteração teria, entre outros, os objetivos de valorizar o patrimônio cultural, de fortalecer a identidade turística do município e de garantir a acessibilidade na via. Durante os debates na casa legislativa, foi mencionada a preocupação com os idosos, os quais, durante eventos que acontecem na Buarque de Macedo, poderiam tropeçar no meio-fio.
Embora não se tenha notícia de que algum acidente relevante tenha ocorrido no local, que há pelo menos dez anos recebe regularmente eventos com grandes concentrações de pessoas, é importante que se reconheça a importância de iniciativas que promovam a acessibilidade e qualifiquem os espaços públicos.
Intervenções dessa natureza, porém, quando aplicadas a áreas históricas sensíveis, como é o trecho em que a mudança foi proposta, resultam em danos irreversíveis à integridade do patrimônio cultural edifi cado e à autenticidade do conjunto urbano.
A Rua Buarque de Macedo constitui o núcleo histórico mais relevante de Garibaldi: seu casario, suas fachadas e seu calçamento original – datado do início do século XX e protegido pela Lei Municipal 3.193/2004 – compõem um acervo único, cujo valor reside não apenas nas edificações isoladas, mas na ambiência urbana como um todo.
A retirada ou alteração do calçamento histórico e o nivelamento entre rua e passeio resultariam, na prática, na descaracterização do Centro Histórico, e na eliminação de referências materiais que permitem compreender a formação urbana da cidade e seu processo de desenvolvimento, como as argolas usadas pelos colonizadores para amarrar os cavalos, que ainda podem ser vistas no meio-fio.
Se a proposta for levada adiante, o verdadeiro tropeço (mais um!) será o da comunidade garibaldense, que cambaleia, entre uma trapalhada e outra, para o apagamento da própria História: nos últimos tempos, é difícil que um ano sequer passe sem que a cidade perca ou passe vmuito perto de perder prédios e outras referências que formam a espinha dorsal de sua memória urbana, entregando ao improviso aquilo que deveria ser tratado com planejamento, com técnica e com responsabilidade institucional.
O patrimônio cultural um ativo estratégico para Garibaldi, que construiu sua vocação turística justamente sobre a valorização de sua história e de seus elementos identitários autênticos. Alterações inadequadas no núcleo histórico não apenas colocam em risco esse capital simbólico e econômico, mas também privam as futuras gerações do direito de vivenciar os testemunhos físicos de sua trajetória coletiva.
É bom que se diga, até por justiça, que o timing da proposta foi adequado: se estamos preocupados com a possível destruição de mais uma parte do nosso patrimônio histórico, pelo menos estamos perto da época das férias. Ainda dá tempo de, para relaxar, planejar um passeio naquela cidadezinha charmosa, com todo o conjunto de patrimônio preservado há séculos, ou então de passar por antigas estradas romanas, cuidadas há quase dois milênios como o tesouro que são. Ainda bem que, pelo menos longe daqui as pessoas têm tropeçado menos.


