Por Frei Aldo Colombo
Duas jovens senhoras, na faixa dos 25 anos, passaram o domingo com a família. Elas moravam na mesma rua, mas não se conheciam. O dia de descanso chegava ao fim e elas projetavam a próxima semana. Uma delas era vendedora de uma grande loja, a outra, simplesmente, mendiga. Cada atividade exigia roupas adequadas e diferentes.
A vendedora apesentou-se ao trabalho, limpa, sorridente, perfumada. Vendia felicidade. A mendiga, antes de dirigir-se ao seu ponto, não longe da loja, desfez-se das roupas usuais em sua casa. Vestiu uma blusa velha e suja, uma saia onde não era possível distinguir a cor inicial, colocou sandálias de diferentes modelos. Foi também necessário dar um trato ao seu rosto, espécie da maquiagem ao contrário e desfez seu cabelo, envolvendo numa touca em estado lastimável. Estava pronta para sua luta diária e ainda tinha um repertório verbal, caso fosse necessário: o marido a abandonara, deixando-a com três filhos, um deles doente e residia num porão. Era o marketing da pobreza: quanto pior, melhor. Na loja a vendedora era abraçada pelas colegas, combinavam o que fazer no próximo fim de semana. Depois começou a acolher a os clientes, com sorriso, fácil e de maneira extremamente gentil. Podia vender, perfumes, televisores, geladeiras… Pretendia superar as metas, porque isto ia se refletir no salário no fim do mês. Ela precisava comprar remédios para a mãe doente. A mendiga teve seu rosto marcado por um sol inclemente e no fim do dia contabiliza os ganhos. Seria possível fazer algumas compras de objetos necessários.
O mesmo esquema se repete em outras atividades. Há mulheres fazendo do seu corpo um chamamento para vender mais. Há quem não queira trabalhar, nem pedir esmolas e se contenta com a Bolsa Família ou doações de clubes que distribuem alguns alimentos e roupas, principalmente, às vésperas do Natal. Há políticos que guardam com cuidado uma velha camisa para a campanha eleitoral, há pastores que vendem o céu por algumas – ou muitas – moedas. Existem também falsos funcionários públicos, falsos comerciantes. Em todas as categorias sociais há pessoas que representam.
O Evangelho aponta a Verdade como solução. Só a verdade vos tornará livres. Trata-se de assumir a vida como ela é, com dignidade. Frade e monge, o capuchinho Frei Salvador dizia: eu sou o que sou diante de Deus. Um dia nos apresentaremos a Ele sem nenhuma máscara. A nosso favor há uma dimensão: Deus tem olhos bons e compreende nossas fraquezas e debilidades. Sabe que somos todos pecadores, mas detesta os fingidos e incoerentes.


