Por Jácson Lusa | Tradicionalista, poeta, pesquisador, comunicador de rádio e cursando bacharelado em Administração
Quando dois ou mais amigos se encontram para falar de suas infâncias a conversa tende a ser uma verdadeira viagem pelo tempo, ainda mais quando esses são de uma faixa etária dos “40+” ou mais… Nesse exato momento entrego a minha idade, com muito orgulho, pois de certa forma essa informação explica e justifica um pouco das tantas histórias que conto aqui nessa coluna semanal
No último sábado a vida oportunizou-me encontrar com alguns amigos que são muito especiais na minha jornada. Entre os convidados da festinha do primeiro aniversário de minha filha Cecília, tive a honra de receber, entre outros convidados, os amigos Evandro Rodrigues da Silva, o Adir Flores e o Géio Santos…
Tudo corria normalmente como em toda festa de criança, a não ser naquele cantinho em frente a churrasqueira onde, enquanto eu espetava a carne no final dia, a prosa se direcionava despretensiosamente para assuntos dos “tempos de guri”. Caminho sem volta para pessoas com uma sensibilidade muito grande de entendimento sobre aspectos que vão mudando com o passar do tempo. Mudanças, essas, percebidas muito mais claramente quando surgem comparações com aquilo que nossos filhos conseguem viver nos dias de hoje em relação ao que vivíamos quando tínhamos a mesma idade.
Segundo o Géio, sua agilidade, habilidade e destreza era tanta, que ele facilmente ensacava um bugio no meio do mato e o levava para casa. Outras “façanhas” surgiram como fagulhas de brasas apagadas que recebem o assopro de alguém querendo reavivar labaredas. Hoje a maioria das crianças nem sabem o que é um bugio, e muitos têm medo até de uma barata…
Nessa mesma conversa lembro de termos comentado sobre quantas e quantas vezes eu corria pra casa, porque tinha tido a impressão de ter ouvido a Vó Chica me chamando. A preocupação era tão grande de perder o chamado da Vó que, muitas vezes, eu ia pra casa antes de ela me chamar. Jamais podíamos desapontar os pais ou avós. Deveríamos atender às suas ordens ou chamados já na primeira vez, além disso, jamais se intrometer na conversa dos adultos. Ou seja, havia valores inegociáveis, onde a criança era limitada em muitos momentos, mas havia um mundo livre para criatividade e brincadeiras que era imensurável.
No domingo o Martín Fierro pediu para ir brincar na pracinha. Aprovei a sua ida, e condicionei o tempo dessa aventura em duas horas, mas ele voltou depois de duas horas e meia. Sentei e conversei com ele sobre o que aconteceria na minha época, e ao passo em que lhe explicava, já me questionava sobre qual dos métodos são mais eficientes para educar nossos filhos. Saí dessa conversa apenas com uma certeza: Os métodos do meu pai funcionaram…
Eis o dilema de uma sociedade moderna onde a “evolução” ajudou em muitos aspectos da vida, mas perdeu-se o controle de muitos valores essenciais para a formação de crianças fortes o suficiente para enfrentarem os desafios da vida de adulto. Depois disso me pus a refletir sobre quais serão as lembranças que o Martín Fierro e seus contemporâneos irão resgatar em suas conversas quando estiverem “quarentões”.
Desejo que todos tenhamos tempo de relatar aos nossos filhos nossas aventuras e, quem sabe, com isso inspirá-los a viverem grandes aventuras dignas de se tornarem saudades ao longo do tempo.


