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Vigiando

Por Jácson Lusa | Tradicionalista, poeta, pesquisador, comunicador de rádio e cursando bacharelado em Administração

Na minha infância muitas tarefas eram atribuídas a mim. Algumas dessas tarefas eram as de casa e muitas eram da lavoura, do campo, na lida do gado, no manejo dos animais que minha família criava para o consumo. De certa forma eu atendia a tarefas que ajudavam minha mãe, minha avó e meu pai. Entre as tarefas tinha uma que parecia ser uma verdadeira “moleza”; fácil, “mamão com açúcar”. Essa tarefa era a de cuidar o gado no pasto por um período de tempo e, quando recebesse o sinal da Vó me chamando, repontar o gado de volta para o potreiro. A tarefa consistia em manter o gado pastando sem que viessem a adentrar na lavoura de milho que não tinha cerca para separar. Então, cada passo dos animais precisava ser cuidado, mas eu só precisava agir se eles tentassem ir para a lavoura, caso contrário, bastava eu estar ali…

Nessas horas meu pensamento viajava, pois assim eu me desligava de pensar no tempo e parecia que as horas passavam mais rápido. Já quando eu me preocupava com o tempo, essas poucas horas pareciam uma eternidade.

Hoje de manhã, na minha caminhada matinal, eu passei pela Praça das Rosas, no centro, e percebi que ali tem um vigilante que fica durante a noite na guarita. Isso me fez pensar na real necessidade de ter alguém para vigiar um lugar que é público, de todos e, portanto, não deveria ter essa necessidade. Pensei no quanto as horas devem passar devagar para esse vigilante nas madrugadas em que ele fica ali, atento para que ninguém mexa nas decorações, para que ninguém estrague algo, pois deve ser essa a real finalidade de sua tarefa.

No meu caso eu cuidava de seres irracionais, que movidos por uma necessidade básica e fisiológica, a fome, poderiam preferir comer o milho da lavoura do que o pasto que estava disponível. Mas ali na praça, o atento vigilante, desenvolve uma atividade que na verdade deveria ser interesse de todos os “racionais” munícipes, turistas, transeuntes, enfim…

Saindo da minha reflexão sobre a necessidade ou não, passo a refletir sobre o quanto o ser humano necessita de estar vigilante e ser vigiado, seja nas atividades que desenvolve no trabalho, seja em casa, ou até mesmo nas condutas de seu viver. Se vamos dirigir, somos vigiados para não desobedecer. Se vamos vender, somos vigiados para pagar impostos; se vamos fazer uma prova na sala de aula, somos vigiados pelo professor para não colar; se vamos no banco somos vigiados para estarmos seguros. De certa forma, o cercear a liberdade ou as limitações impostas pela vigilância constante, nada mais é do que uma consequência das manobras humanas de burlar algo, tirando obviamente a questão dos governos que, muitas vezes, usa a vigilância como desculpa para arrecadar dinheiro. Se o ser humano não fosse tão vulnerável a mexer no que não é seu e respeitar o espaço e a liberdade do outro, não necessitaria de tantos vigilantes.

Segui minha caminhada e pensei também: essa vigilância toda, embora exagerada, não limita a liberdade de quem não tem intenção de fazer algo errado. A propósito, nossa cidade está muito bonita e as praças revitalizadas estão tendo um papel muito importante. Quando vejo as praças cheias de crianças e famílias, aos fins de semana, fico muito feliz e, se para manter isso é necessário a vigilância, que assim seja.

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