Por João Paulo Deluca| Historiador, radialista e colono de apartamento
Preservem os bois de canga
Estima-se que cerca de 1200 espécies de animais estão ameaçados de extinção no Brasil. Mico-leão-dourado, lobo-guará, arara-azul, entre outros, integram a lista.
Quando fui pesquisar esta listagem, senti falta de um animal em específico, que ao menos aqui na Serra Gaúcha, já está virtualmente desaparecido e, em pleno 2026, é raríssimo de ser encontrado: o boi de canga.
A junta de bois de canga era uma figura tão comum nas propriedades do interior da Serra Gaúcha como eram a vaquinha de leite, a galinha poedeira de ovos ou o fiel cachorro vira-lata roedor de ossos. Na maior parte dos casos, eles eram formatados na propriedade mesmo: quando a vaquinha de leite dava à luz um bezerro, o olhar experiente do nono já indicava se ele tinha o potencial para se tornar um puxador de carroças e arados. Pode parecer um destino duro, mas a outra opção era pior: não passar de duas semanas de vida e virar o vitelo do churrasco do domingo (aliás, saudades de um vitelo bem temperado).
Não era simples a arte de domesticar dois bezerros ou novilhos para transformá-los em bois de canga: exigia paciência, técnica e uma dose de experiência que só a vida no interior podia proporcionar. Por dias, semanas, meses, o nono tratava de puxar juntos, lado a lado, os dois animais, até que eles se acostumassem a ser um só, uma dupla em uníssono, quase uma única entidade. Uma boa junta.
Algo que sempre me intrigou foram os nomes dados aos bois. Fatalmente, em algum momento da sua vida no interior, você se deparou com uma junta de bois chamada Mineiro e Gaúcho. O Gaúcho, ok, é compreensivo. Agora, Mineiro… Como esse nome se tornou tão popular entre os bois da Serra Gaúcha? Algum morador de Minas Gerais colocou isso como lei? Teria sido um complô vindo das montanhas mineiras? Haveriam “Gaúchos” puxando carroças em Minas? Lembro que lá em casa tínhamos o Mineiro e o Campeiro, a “dupla” com quem mais trabalhei na minha infância. Fizeram tanto sucesso que, após a devida e merecida aposentadoria, foram substituídos por mais uma dupla Mineiro e Campeiro. Capitão era outro nome clássico. Companheiro também estava bem presente, sugerindo, provavelmente, uma relação fraternal entre o dono e seu fiel puxador de carroça.
As últimas gerações de bois de canga eram mais “gourmet”. Afinal, cabia a eles puxar a carroça de pneus, a qual, convenhamos, era bem mais fácil e tranquila de ser conduzida do que a rústica e primária carroça com aros de madeira, que criava sulcos, valos e buracos por onde passava, contribuindo sumariamente com a erosão nas estradas da Serra Gaúcha.
E por que os Mineiros, Gaúchos e Campeiros sumiram do mapa? A explicação é óbvia: todos foram substituídos por Agrales, Valmets e Landinis. Os tratores passaram a se popularizar na virada do século, graças às facilidades das novas linhas de financiamento. A canga e a roda de carroça deixaram de ser utensílios fundamentais no interior para se tornarem objetos de decoração em CTGs, galpões e quiosques Rio Grande afora. E convenhamos: é bem mais fácil dirigir um trator do que uma junta de bois descontrolada, numa carroça sem freios.
É raríssimo, hoje, observar juntas de bois em nosso interior. Em alguns casos, se tornaram tão raros que viraram atração turística, como em Coronel Pilar, onde um senhor faz passeios com sua carroça e a bela junta de bois, com cupins avantajados que provocam a salivação no carnívoro mais fervoroso, imaginando aquela peça de carne envolta numa papel alumínio por mais de quatro horas. A mesma realidade, porém, não é observada em outras regiões. No último domingo, participei de uma caminhada de mais de 50 quilômetros pelo interior de Salvador do Sul, Poço das Antas e Brochier. Pude observar em diversas propriedades a presença das carroças, firmes e fortes, em alguns casos carregadas de capim elefante, mostrando que seguiam sendo utilizadas, em pleno 2026.
Lembro que, numa comunidade chamada Linha Holanda Alta, enquanto caminhávamos debaixo de uma fina garoa, observava dois homens, ao longe, indo em sua carroça de pneus e sendo conduzidos por uma bela junta de bois na cor cinza, provavelmente indo em direção à busca por pasto. Aí fiquei tranquilo e vi que a instituição “boi de canga” ainda resiste em muitas propriedades desse estado.
Confesso que a cena me deixou com um pouco de saudade da época que andávamos de carroça carregada de batatas, milho e capim. Mas foi por pouco tempo.


