Por João Paulo Deluca| Historiador, radialista e colono de apartamento
Dia das Mães, 1886
Meu assunto hoje, inevitavelmente, teria que ser o Dia das Mães. Em primeiro lugar, claro, porque é a data do final de semana. Em segundo, porque tenho adquirido o hábito de juntar a coluna com datas especiais. E terceiro (e mais importante): porque senão não vou ganhar torta de bolacha da Dona Inês no próximo domingo.
É interessante de se observar como o processo de criação dos filhos e a relação das mães com suas crias também tem mudado numa velocidade assustadora na Colônia, como tudo, aliás, nos últimos vinte ou trinta anos. O que é igual em qualquer geração é o amor de mãe. Mas também, esse amor é demonstrado em diferentes escalas, formas ou gestos.
Por exemplo: fico imaginando como estaria o coração daquelas mães que tinham os seus sete, dez, doze filhos, e os levavam todos os dias para a roça. Antes de começar a lavrar a terra para o plantio da batata ou do milho, a preparar o parreiral, existia um ritual: cavar um buraco no chão. Era lá que os pequenos ficavam durante todo o dia. Geralmente, esse buraco era cavado embaixo de alguma árvore estrondosa, quem sabe uma canela, um angico, ou um grande mato de bambus. Os pequenos ficavam ali dentro, e aqueles um pouco mais velhos, caso ainda não estivessem aptos para ajudar na lavoura (status que era alcançado em torno dos sete ou oito anos), ficavam responsáveis por “vigiar” o buraco e evitar a entrada de alguma aranha ou cobra peçonhenta.
Já me contaram também das mães mais radicais. Nesse caso, podemos voltar ainda um pouco mais no tempo. É o caso das mães que iam para a roça, e para a “segurança” dos filhos, os enrolavam em panos, deixando-os imóveis dentro de cestos. Permaneciam estáticos durante toda a jornada de trabalho, mas para aquele coração de mãe, estavam seguros.
Há as mães que tiveram o coração dilacerado e ainda assim tiveram que seguir com a vida. Minha tetravó Giudita Fachinelli veio da Itália em 1875 com o objetivo principal de dar uma vida melhor para os três filhos no distante Brasile. No meio da viagem, entretanto, a filha Giacinta adoeceu no navio e não resistiu. Seu corpo, tal qual uma bonequinha de porcelana, foi jogado ao mar, nas águas frias do Atlântico, sem um enterro, sem uma despedida digna. Fico imaginando quantas noites a Giudita passou acordada, deitada em um humilde colchão de palha numa moradia improvisada, pensando e revivendo a imagem da única filha mulher indo de encontro ao oceano. Quantas vezes ela deve ter pensado o que poderia ter feito de diferente? Quanta força ela precisou reunir dentro de si para seguir com a vida e buscar dar o melhor para os outros dois filhos e o marido? E quantas histórias como essa aconteceram ao longo de todas as viagens migratórias, sem que às vezes sequer houvesse um abraço de consolo a estas mães?
Aquelas que venciam a longa travessia do oceano estavam apenas no começo de suas provações maternais em novas terras. Como alimentar tantas bocas famintas, tendo apenas o mínimo do mínimo? Essa é a primeira pergunta que quase todos se fazem após observar antigos álbuns de família, ou em conversas do tipo: “Meu bisavô teve 15 filhos”, “Meu avô teve 11”, enfim. O número varia, mas geralmente passava de uma dezena.
Acredito que essas mães faziam alguma espécie de mágica. Uma alquimia colocada no caldeirão da polenta que multiplicava aquela farinha de milho, fazia render e saciava a fome de tantos filhos ao mesmo tempo. Essa mesma mágica era responsável pela cura de febres, tosses, sinusites e uma infinidade de doenças respiratórias que o inverno serrano trazia consigo. Claro, nem toda mágica era suficiente diante de sarampo, tuberculoses e outras enfermidades que multiplicavam a mortalidade infantil nas colônias a números assustadores nas últimas décadas do século XIX. Mas tenham certeza que sem essas mágicas das mães da colônia, esse número seria muito maior. O conhecimento ancestral que foi herdado da mãe, da avó e da bisavó que permaneceu na Itália, na Alemanha, na Polônia, etc, foi fundamental para salvar muitas vidas.
Essa dureza da vida fez com que talvez o abraço caloroso não fosse o principal elemento afetivo destas mães. O afeto vinha na forma de cuidado: no olhar, na preocupação, nas noites sem dormir. Felizmente, as novas gerações de mães podem dar esse mesmo cuidado e ainda oferecer de bônus um forte abraço, seguido por um “Te amo, filho(a)”. Por isso, neste domingo, abrace sua mãe. Ela perdeu muitas noites de sono para cuidar de você. Provavelmente, não cavou nenhum buraco no chão, nem te “mumificou” para cuidar de você. Mas o amor de mãe, a gente sabe, vem nos mais diversos formatos. Até em torta de bolacha.



