Por João Paulo Deluca| Historiador, radialista e colono de apartamento
Feriado? Pra quem?
Amanhã, sexta-feira, dia 1º de maio, é feriado de Dia do Trabalhador. Dia de descanso, dia de aproveitar para fazer uma passeio com a família. O mesmo verificamos recentemente, no dia 21 de abril, Dia de Tiradentes. E assim será com outras tantas datas, como 7 de setembro, 12 de outubro, 15 de novembro, entre outras. Milhões de trabalhadores param, relaxam e descansam. A não ser, é claro, que você seja da Colônia.
É interessante observar como a vida segue outro ritmo no interior, mesmo em dias de feriado. Ou melhor: segue a mesma rotina de um dia normal. Feriado tem outro conceito no interior. Como o trabalhador faz seu próprio horário, o dia segue exatamente o mesmo como outro qualquer.
Quando criança, lembro que feriado tinha outro conceito. Significava trabalho em dobro. Sim, porque nós não apenas trabalhávamos na roça no “contraturno escolar”, como também tínhamos de brinde o turno em que normalmente estaríamos dentro das salas de aula, seja da Escola São Marcos, no ensino fundamental, seja no Instituto Irmã Teofânia, no ensino médio. Geralmente, a atividade da roça naquele dia era estrategicamente pensada, levando-se em consideração o adicional de mão de obra. Poderia ser uma roçada pesada, um trabalho com o arado e os bois (preservem os bois de canga, sempre), ou em épocas de tratamento dos parreirais, a clássica atividade de “puxar a mangueira”, a qual, aliás, deve demandar em breve uma coluna exclusiva a ela. Restava aos desafortunados estudantes do interior que não queriam se submeter à carga dobrada de trabalho apelar para São Pedro mandar uma chuva estratégica, que impediria qualquer uma destas atividades. Não impediria o trabalho, pois dia de chuva era dia de “fazer alguma coisa no paiol”. Mas, de todo modo, pelo menos rendia algumas horas a mais de sono pela manhã.
Esta era a realidade da maioria dos feriados. Haviam algumas poucas exceções, em que a colônia também parava: eram os feriados “santos”. O principal deles era a Sexta-Feira Santa, a qual inclusive já foi tema de coluna por aqui. Trabalhar neste dia: sacrilégio, impossível. Podemos citar também Corpus Christi, ao menos no turno em que havia a missa e a procissão. No outro, lá íamos nós para a roça novamente. E outro que também parava o interior era Finados. Neste caso, havia o combo clássico: missa e visita aos parentes. O roteiro era simples: ir para a missa na comunidade (ou em outra, onde os familiares estivessem enterrados), e depois fazer aquela visita, sempre seguida pela frase: “A gente só se encontra nesse dia”. Claro, se considerarmos Natal e Ano Novo como feriados “normais”, eles também entram nessa lista.
Isso significa uma carga de trabalho a mais para o pessoal do interior? Não necessariamente. Tudo era uma questão de como administrar o tempo. Um CLT clássico tem a responsabilidade de estar todo o dia na empresa às 7h10min da manhã, ou 7h30min, 8h, enfim, horário de início de expediente. No interior, quem faz o horário é você mesmo. Conheço dois extremos: gente que se dá ao luxo de ficar na cama até um pouco mais tarde e acordar conforme a demanda do trabalho do dia. Por outro lado, há aqueles que literalmente acordam antes do galo e inclusive se “culpam” se acordam depois das 6h, por exemplo. Por outro lado, o fim do expediente para um CLT geralmente é as 17h, ou 18h30min se você for do comércio. Para quem é do interior… Bom, aí nunca se sabe. Depende se a vaquinha já foi alimentada, se todo o milho foi colhido, se o pasto da manhã seguinte foi preparado…
Em resumo: talvez você esteja pensando que essa coluna busca fazer um comparativo para tentar entender qual trabalho é “melhor”, o da cidade ou da colônia. A conclusão é simples: o melhor trabalho é aquele feito com prazer, é aquele que você gosta. Se você fica feliz em estar numa empresa operando uma máquina ou atendendo as pessoas no comércio, faça. Se o que você gosta é pegar o trator e sair por debaixo do parreiral, vá. Mas, acima de tudo, seja feliz. Claro, não podemos ter apenas uma visão romantizada do trabalho. Precisamos pagar nossas contas, e se der pra sobrar um troquinho no final do mês, melhor ainda. Mas é inegável que, se o que fazemos nos traz felicidade, a consequência disso vem muito mais fácil. Portanto, aproveite o Dia do Trabalho, seja ele de folga, na cidade, ou de trabalho no interior. Feliz dia a todos os trabalhadores!
Spoiler: parece que amanhã chove. Melhor você ver o que tem para fazer no
paiol…


