Por João Paulo Deluca| Historiador, radialista e colono de apartamento
As novas nonas
Entre tantos grostolis degustados no festival no último final de semana, passei a observar de forma mais atenta aquelas jovens senhoras amassando e juntando quilos e quilos de farinha, ovos, leite, nata e fermento, entregando-os aos milhares de visitantes que passaram por Garibaldi. Minha observação não era feita à qualidade do produto (impecável, diga-se de passagem), mas a uma constatação: o perfil de nossas nonas está mudando?
Penso que minha geração é uma das últimas a poder curtir as “nonas raiz”, aquele perfil quase estereotipado que tanto mexe com nosso imaginário e memória afetiva. Aquela senhorinha que mora no interior, numa casa antiga, com fogão a lenha e uma chaleira sempre fervendo, com os olhos cansados mas ao mesmo tempo repletos de amor.
Inevitavelmente, me vem à mente a memória de minhas nonas Maria e Helena, mas com um olhar especial para a primeira, com quem convivi mais, por morar ao lado e por estar com ela nos meus primeiros 22 anos de vida. Por morar muito próximo, todos os dias ia lá tomar meu café da manhã. O ritual era sempre o mesmo. Como um bom neto mimado, apenas sentava na mesa (em dias de inverno, ao lado do fogão a lenha), e nona Maria levava até mim de tudo: pão, queijo, salame, mortadela, biscoitos coloniais, biscoito maisena, bolachas “Kuki” (ainda existem?), grostoli, biscoitos com aquela cobertura branca, uma generosa xícara de porcelana cheia de café, para finalizar com a clássica frase: “Hoje não tem muita coisa”. Depois, partia para as atividades diárias, de preparar o pasto para as vaquinhas, tratar as galinhas, rachar a lenha para o fogão. E sempre com os pés descalços – isso será assunto para outra coluna.
Para muitos da minha geração, o ritual do domingo era clássico: sair de carro para visitar a nona e o nono no interior. A recepção, geralmente, era com uma cuia de chimarrão. O nono, às vezes, oferecia aquela graspinha, mesmo sendo repreendido pelos pais. No fogão a lenha, uma panela das grandes, cheia de sopa de capeletti devidamente preparados com as próprias mãos da nona durante a semana. Após a sopa e a carne lessa, que, pasmem, era um simples aperitivo, era obrigatório emendar com um generoso churrasco, quase sempre acompanhado da frase do nono: “Hoje não botei muita carne”. Felizes são as gerações que puderam conviver com essas nonas e essas memórias afetivas. É um perfil que está se extinguido, não porque as nonas atuais não mimem seus netos, muito pelo contrário: o amor segue o mesmo. O perfil de nossa gente está mudando. As nonas estão modernas. Elas fazem chamada de vídeo para falar com seus netos. Ganham dinheiro com os produtos que vendem, e o utilizam para passear, conhecer lugares novos. Além disso, com a migração constante da população do interior para a área urbana, temos cada vez menos nonas, e mais avós. Ruim? Claro que não, apenas diferente. O que é fato é que o amor pelos netos e netas continua o mesmo. Mas fico aqui pensando quantas nonas ainda tem esse perfil clássico que mencionei na coluna.
Acredito que, assim como tantas coisas que mudam no interior com uma velocidade impressionante, este perfil também está mudando. O estereótipo da nona clássica passará a ser uma lembrança vaga, contada pelo pai e pela mãe. As novas gerações terão o privilégio de ver suas avós todo o dia, pela tela do smartphone.
Independente se a sua nona é mais “raiz” ou mais “tecnológica”, minha mensagem é: aproveite cada momento com ela(s). Frei Aldo Colombo, que está comigo nesta página, sempre diz que “avós são pais com açúcar”. Aproveite. Este açúcar não faz mal pra saúde. Nem o açúcar do grostoli da nona.


