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CRÔNICAS COLONIAIS

Por João Paulo Deluca| Historiador, radialista e colono de apartamento

Sobre nonas e grostolis

Se alguém, há vinte ou trinta anos atrás, chegasse para a minha nona e dissesse que em 2026 as comunidades faturariam mais vendendo grostoli em três dias do que com toda uma festa de comunidade, certamente receberia um riso sincero de deboche, seguido pela frase “Vá vá, tási su” (numa tradução literal: ‘vá vá, fica quieto’). Sim, porque ainda beira o inacreditável o tamanho do sucesso que o Festival do Grostoli atingiu. E isso se deve a uma série de fatores, mas a um deles em especial: as nossas nonas.

Sim, porque, por mais que tenhamos padarias maravilhosas em Garibaldi, que fazem grostolis deliciosos, não seria a mesma coisa ter no lado de dentro daquelas barraquinhas de madeira um atendente de padaria, ao invés de uma nona sorridente e com o sotaque mais carregado e gostoso desse mundo. Com esse evento, conseguimos colocar definitivamente em evidencia estas mulheres que por vezes estavam à sombra de seus maridos, lá na propriedade ou nas próprias comunidades.

É ousado, porém real, dizer que o Festival do Grostoli encerra um ciclo de transformação da autoestima de nossas mulheres do interior iniciado por Maria Helena Vidor no final dos anos 70, quando passou a visitar as localidades mais afastadas de Garibaldi e ver o tamanho do potencial que existia naquelas mulheres de mãos calejadas e olhar sofrido (e que a própria Maria comenta na contracapa deste jornal). E não deixa de ser surpreendente que esse resgate de autoestima vem através de um produto tão comum e banal nas casas de nosso interior.

Lá na nossa casa, em Marcorama, grostoli era feito em dia de chuva. Sim, aqueles dias nublados, chuvosos, que te impediam de sair de casa, era um chamariz para o preparativo da iguaria que muitas mulheres tinham recebido de suas mães e avós, mas que foi aperfeiçoada por Maria Helena Vidor. Minha função era simples: fazer o “nó” do grostoli, ou seja, passar uma ponta pelo meio da massa, naquele buraco devidamente cortado. Era simples, mas ao fazer aquilo, me sentia o maior mestre confeiteiro do planeta. Na hora não compreendia, mas hoje entendo o porquê: tinha amor, carinho e tradição dentro daquele gesto. Que foi ensinado por minha mãe Inês, mas que certamente ela herdou da sua mãe, Helena, ou da sogra Maria, que por sua vez receberam das próprias mães, e assim vamos, de geração em geração. Até hoje, estou tentando entender o segredo de um grostoli fofo tão aerado e macio. Grostoli fino era feito de atacado, para que jamais faltasse. Embalava os sábados à noite, no intervalo de um duelo e outro de bisca, escova, pife ou canastra.

A Maria Helena Vidor me disse esses dias que a nata revolucionou as receitas de grostoli. Isso porque, antigamente, o grostoli era feito com as sobras da massa do pão. Não chegava a ser o produto como o conhecemos hoje. Digamos que era um “antepassado” dele. A nata trouxe uma maciez que a receita antiga não tinha. Depois, começou a ousadia de incrementar as receitas com raspas de laranja, raspas de limão (ou limão bergamota, vulgo limoneta). Até que, em 2026, parece que estamos rompendo as raízes conservadoras do catálogo de grostolis ao apresentarmos o grostoli de salame.

Esses dias me peguei pensando na melhor harmonização para o grostoli. Ainda acredito que o café preto é um clássico que não tem erro e nunca sai de moda. Me parece que ele fica mais gostoso se for servido em duas opções de xícara: naquela redondinha de porcelana, preferencialmente com um detalhe de flor pintado no lado externo, ou então numa menor, na cor laranja, “de Duralex, para os íntimos”. Embora, não há como negar que o grostoli fino vai muito bem numa harmonização de contraste. Afinal, aqueles jogos de cartas, acompanhados de grostoli, também tinham uma cervejinha ao lado. E convenhamos, não há como negar que a mistura ousada e até poucos anos inimaginável de grostoli e espumante é uma harmonização perfeita. Além disso, quantos jantares de

casais não serviam essa iguaria por volta da meia-noite, para recuperar as energias dos casais após horas dançando bandinha e música gauchesca?

Voltando ao evento que inicia logo mais à noite: não creio que o grostoli seja a grande estrela do evento. Para mim, quem brilha mesmo é quem fabrica essa iguaria. É aquela nona na frente da fritadeira que, mesmo com a dor no joelho, fruto de décadas de trabalho braçal, não tira o sorriso do rosto. Grostoli é isso. É afeto, é carinho. Assim como um café na xícara de porcelana, num dia de chuva.

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