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CRÔNICAS COLONIAIS 

Por João Paulo Deluca| Historiador, radialista e colono de apartamento

O último dia
Poucas datas no ano são tão saborosas para um colono produtor de uva quanto esta que muitos já viveram, e outros viverão em breve: o último dia da safra.

É preciso revisitar todo o ciclo de produção para entender o que representa este último dia de colheita. Não estamos falando do fechamento de um ciclo de um mês. Trata- se do fim de praticamente um ano inteiro de trabalho. Esse período inicia entre março e abril do ano anterior: enquanto os vinhedos começam a bocejar e entrar no período de dormência, tingindo as paisagens com as múltiplas cores da paleta do outono, o agricultor já retorna ao trabalho, seja para aquela roçada clássica, seja para os ajustes de algum fio caído ou para a poda inicial, chamada de desponte, que vai lhe adiantar boa parte do trabalho que seria feito em agosto. Aí chega o inverno: época de podar os plátanos, de adubar os vinhedos, de congelar os dedos enquanto eles vão apertando a tesoura de poda. A primavera chega correndo, quase tão rápido quanto aquele broto que aparece sorrateiro no meio do inverno, como que dizendo: me poda logo, cansei desse frio e quero pintar de verde novamente esse parreiral. Chega o tratamento às novas folhas em setembro, e quando menos se espera, a sintonia de tratores, pulverizadores e (quem diria) drones já rompe com o silêncio por debaixo dos parreirais.

E aí sim chegamos em janeiro, quando o colono entra no primeiro dia da safra, com a bacia, caixa ou bim limpinho. O filme que passa na cabeça é duro: ele começa a pensar em todos os parreirais que tem pela frente, no calor sufocante, nos marimbondos que inevitavelmente aparecerão em frente ao seu rosto, na falta daquela sesta após o almoço, pois a carga precisa ser feita, ou nos dias que parecem intermináveis… até chegarmos ao último.

O último dia de colheita é diferente. O agricultor já acorda com outra energia. “Último dia. Amanhã vai dar pra descansar. Se bobear consigo até ouvir o Programa do Frei Aldo”. E então ele vai para debaixo do último parreiral. Pelo caminho, outros vinhedos já sem uva, apenas com as folhas começando a despencar, com as marcas dos pneus dos tratores que há poucos dias estavam por lá. Uma olhada para o céu é inevitável: “São Pedro, tu segurou até agora, segura esse último dia também”. À medida que a última fileira do último parreiral se aproxima, um misto de emoções toma conta. E quando o último cacho é colhido, o cérebro está em festa, embora o corpo não demonstre: ainda é preciso aprontar a última carga, carregar e só depois que a uva é entregue na Vinícola, ter a certeza de que, sim, está tudo finalizado, a safra foi boa e o clima colaborou (ou nem tanto, mas tudo bem).

A forma de comemorar o fim da safra varia de família para família. Há os que, no mesmo dia, preparam aquele churrasco suculento (costela, de preferência), com aquele galeto bem temperado, o salsichão com farofa e aquele caipira no copo gigante, com a colher junto, “só pra abrir o apetite”. Há quem é mais comedido e simplesmente dá aquele grito em uníssono para que todos saibam (ou pelo menos os vizinhos) que mais um ciclo se encerrou. Lá pelos lados de Marcorama, se comemora brindando: enquanto o caminhão com a última carga sai em direção à Cooperativa Vinícola Garibaldi, dirigido por meu irmão (ou mais antigamente, pelo meu pai), os demais se reúnem sob a sombra de um gigante ligustro, tantas vezes amaldiçoado pela minha mãe e minha tia devido às suas infinitas folhas, que exigem um ciclo sem fim de limpeza do gramado. Ali, uma cerveja devidamente selecionada e há tempos guardada na geladeira, é aberta. O sabor dela é inigualável. Pode ser comparado, talvez, àquela primeira cerveja do teu primeiro dia de férias na praia. Ou, quem sabe, à cerveja aberta logo depois que teu time ganha o Gre- Nal.

O que se segue depois do churrasco, do grito ou da cerveja é um momento de dúvida. Terminou mesmo? Podemos realmente descansar? Relaxar sem culpa? Se passam algumas horas em que a dúvida paira no ar, sobre o que será feito nos próximos dias. Parece que falta algo. Muitos não se permitem descansar, talvez ainda imbuídos daquele sentimento de sofrimento que está intrínseco no colono de qualquer geração.

Dias depois, alguns vão à praia para o merecido descanso. Outros, especialmente os nonos, reclamam e dizem que é preciso “esparanhar”, porque a safra não foi boa (mesmo sendo 50% maior que a do ano passado). O fato é que todos se permitem sentir aquele prazer único, delicioso, quase indescritível do último dia de colheita. Mas não por muito tempo: afinal, daqui a algumas semanas é preciso voltar para debaixo do parreiral, para roçar, adubar, despontar… Tudo por aquela cerveja debaixo do ligustro.

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