Por Jacson Lusa
Sempre que tiro tempo para lavar os meus sapatos reflito sobre como o tempo passou… Hoje eles não sujam de barro como antigamente. A sujeira da cidade não é nem de perto parecida com a lama vermelha que sujava meus calçados no passado.
Enquanto mergulho um tênis na água me vem a lembrança de quando fazia essa mesma tarefa na minha infância e, além dos meus, lavava os calçados da minha avó, do pai, da mãe e do meu irmão… Lá sim tinha que lavar com muita água, escova e “sabão de soda” porque a terra vermelha se impregnava nos calçados. A terra grudava tanto que levava horas esfregando para poder limpar…
Quando a Vó Chica ia em uma loja para comprar um calçado, o primeiro fator de escolha a ser avaliado era a cor. Obviamente ela escolhia uma cor “fácil de limpar”. Ela nunca comprava calçados brancos, nem muito cheio de detalhes ou pontos que dificultasse a limpeza.
Assim como as roupas, tínhamos sempre um calçado para festas, ou alguma ocasião especial que a gente chamava de “calçado de sair”. Esses eram usados somente para essas ocasiões, e se fosse em algum dia de chuva era usado um calçado velho até chegar perto do destino e o ” calçado de sair” era levado em uma sacola para não sujar. Quando estávamos perto de chegar, fazíamos a troca para chegar com o calçado limpo.
Parece bobagem, mas foram essas pequenas coisas que me ensinaram a valorizar o que eu tenho hoje, as pequenas conquistas. E foi por isso que me peguei rindo sozinho enquanto lavava meus calçados, em menos de meia hora lavei todos os que tenho. A vida que trilhei me fez calçar sapatos duros para que eu soubesse valorizar os sapatos mais confortáveis que tenho hoje.
A vida nos ensina muito mais na luta do que nos “dias fáceis”. A dificuldade nos ensina mais do que o conforto e a estabilidade. A cada batalha que enfrentamos e vencemos saímos não só mais fortes, mas mais sábios.
O meu calçado limpo, com mais de três anos de uso, com aspecto de novo, não conta a metade da história de um calçado simples e judiado de menos de um ano de uso, lá na minha infância. O sentido de valor não está naquilo que muitos ostentam, mas na humildade grandiosa de pessoas que lutaram e aprenderam muito mais do que algumas que ostentam grandeza.


