Por João Paulo Deluca| Historiador, radialista e colono de apartamento
Sexta-feira Santa na Colônia
Provavelmente muitas pessoas lerão esta crônica amanhã, aproveitando o feriado.
Amanhã, porém, não é uma sexta-feira qualquer, é Sexta-feira Santa. E isso também implica diretamente os hábitos alimentares de todos nós, especialmente de quem cultiva a fé e a crença no catolicismo.
É bem verdade que alguns hábitos mudaram bastante nas últimas décadas, em termos de Quaresma. Os mais antigos lembram que, em outras épocas, era proibido sair para qualquer festa no período compreendido entre a Quarta-feira de Cinzas e a Páscoa. Os bailes, então nem se fala. Na verdade, eles sequer eram organizados, afastando de cara qualquer tentação, especialmente do público mais jovem.
Com o passar do tempo, o foco principal passou a ser o jejum. Muitos o praticavam durante todos estes quarenta dias. A maioria, porém, focava nas Cinzas e, especialmente, na Sexta-feira Santa. Nesta última, era proibido, um sacrilégio, qualquer refeição fora das três principais. Lanchinho no meio da tarde? Descartado. Colassion? Nem pensar. Hoje, observo poucas pessoas que ainda mantém esse hábito. Dizem que é difícil. (mas se a nutricionista pedir um jejum intermitente, conseguem. Sinal dos tempos…)
O que se mantém intacto como hábito é o consumo de peixes na Sexta-feira Santa, integrando a penitência da abstinência de carne. O que mais acho interessante é que as pessoas parecem sentir uma necessidade quase vital de consumir peixe, quando na verdade, o que se prega é apenas a abstinência de carne vermelha. Um arroz com feijão seria suficiente. E, paradoxalmente, muitos não mantém o hábito do consumo de peixes ao longo de todo ano, apesar de reconhecidamente ser uma das proteínas mais saudáveis.
Por muito tempo, as receitas de peixes no interior ficavam restritas a algumas poucas, que podiam ser contadas nos dedos de uma única mão. O acompanhamento, bom, esse é único: uma bela e generosa polenta, especialmente preparada no caldeirão de ferro e mexida à exaustão pelos braços da nona, em movimentos repetitivos que perduravam por horas. Para acompanhar, quem sabe, um lambari frito, geralmente pescado em aventuras do nono ou do pai pelo Rio Taquari, em locais clássicos como Bom Retiro do Sul ou Vila Mariante. Se no fundo da roça houvesse aquele açude, então a origem dos lambaris era mais próxima.
Mas o açude de casa, geralmente, era o local das carpas, que davam origem à outra receita clássica. Alguns sábados antes da Sexta-feira Santa, especialmente depois do almoço, era hora de tirar aquela vara de caniço guardada há muito tempo no porão e rumar até o açude, de olho naquela carpa que você sabia que estava lá, navegando em algum lugar daquelas águas barrentas do açude. Se você desse sorte, então o almoço estava garantido. Filés de carpa, porém, exigiam um teste a mais de paciência na hora do almoço: tirar os espinhos. Comer era quase uma atividade secundária: era preciso sentir, com todas as papilas e com todos os movimentos possíveis de sua boca, aquele espinho que teria passado batido enquanto você analisava aquele pedaço de peixe com seu garfo e sua faca. Engoli-lo significava todo um processo para se livrar do engasgo, que compreendia desde a degustação de muito miolo do pão da nona, ou até o risco de ir para o hospital, sempre baseado naquela história do “fulano daquela comunidade que engoliu o espinho e foi parar no hospital”.
Some-se a essas receitas também o preparo do bacalhau. Bacalhau, aliás, parece um prato que só aparece na Sexta-feira Santa; no restante do ano, ele desaparece misteriosamente, sem deixar vestígios (a não ser que você esteja lendo essa coluna em Portugal). Lá em Marcorama ele era preparado numa espécie de pirão, a ser misturado na hora do almoço com aquela polenta mole. O cheiro forte fazia com que alguns amaldiçoassem o bacalhau, mesmo sabendo que a nona voltaria a prepará-lo na Sexta-feira Santa do ano seguinte.
É claro que nos últimos anos a quantidade de receitas, formas de preparo e hábitos mudaram bastante, inclusive no interior. Hoje é muito mais prático a ida até o mercado ou a peixaria para comprar aquele filé de tilápia pronto, saindo de lá feliz em saber que aquele filé não tem espinhos e o almoço da Sexta-feira Santa não será um teste de paciência. Há quem até já parta para um camarão, uma paella, salmão ou bacalhau em lascas. Se bobear, até dê para fazer uma sesta depois da Polenta. Mas não por muito tempo. Afinal, no meio da tarde tem a Celebração na Igreja. E essa, é claro, não dá pra faltar.


