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CRÔNICAS COLONIAIS

Por João Paulo Deluca| Historiador, radialista e colono de apartamento

Temporada de massagens

Nesta semana, a safra da uva foi praticamente encerrada, com algumas exceções. Isso me lembra que, na época em que tudo era mais manual e artesanal em termos de colheita, iniciaria agora uma nova safra: a safra para as massagistas.

Sim: era época de (tentar) colocar a coluna em dia. Ah, a maldita dor nas costas que tanto perseguia nossos agricultores em época de safra de uva… No mês de março, os telefones de massagistas, quiropráticas, benzedeiras e afins fervilhavam com os contatos de quem passou dois meses embaixo de parreiras com a coluna torta, esgueirando-se por entre parreiras baixas, sem a devida quantidade de postes necessários. Ou ainda de quem passou todo esse tempo curvado devido ao carregamento contínuo das caixas de uva.

As tão celebradas e bem vindas caixas de vinte quilos, que revolucionaram a colheita de uva na segunda metade da década de 80, ajudaram a impulsionar a lordose e o bico de papagaio, especialmente em quem era responsável pela árdua tarefa de carregá-las: uma por uma, eram apanhadas do chão, e de lá para o carreto, carroça ou afins; de lá, seguiam para um trator maior, para posteriormente serem erguidas, de três em três, até o caminhão. Imaginem que uma carga de caminhão médio tinha em torno de 200 caixas. Eram 200 vezes em que o agricultor precisava se curvar. Por carga. Amplie isso para dois meses.

A dor nas costas faz parte da rotina do agricultor como a vaca de leite, o queijo e o salame ou o vira-lata caramelo que rói o osso do brodo da sopa de capeletti. Ela também vinha através dos sacos de batata que eram erguidos do lado direito da cabeça para serem transportados até a carroça; dos cestos cheios de espigas de milho para serem levados até o trator; ou ainda da coluna arqueada de nossas nonas que faziam centenas e centenas de metros carregando um enorme feixe de capim elefante para alimentar a vaquinha que era responsável pelo leite e queijo diários.

Felizmente, para a alegria dos agricultores, a mecanização da agricultura familiar ajudou a aliviar “el mal de la squena”. Na uva, os bins, caixas de quatrocentos quilos erguidas por tratores, e a colheita a granel fizeram com que as caixas de vinte quilos se tornassem itens de museu, esquecidas em algum porão empoeirado ou ainda servindo de canteiro para o plantio de folhagens da nona. O cultivo da batata entre os pequenos agricultores é raro; o milho tem uma colheita essencialmente mecanizada, enquanto o capim elefante agoniza em meio ao mato, nas raras propriedades em que ainda há as simpáticas vaquinhas de leite.

Talvez hoje, por ironia, a principal causa de dor nas costas no pessoal do interior, especialmente da turma da uva, venha da mecanização: são as horas em que se passa em cima do trator, curvando-se por debaixo dos parreirais para escapar dos galhos e do risco de ter seu chapéu de palha derrubado enquanto a máquina avança com o bim ou o carreto carregado de uva para ser despejada no caminhão. Os mais atentos ainda poderão me alertar que a dor nas costas hoje está presente na viticultura através da poda: nessa época, ainda é inevitável ficar horas e horas com o pescoço curvado, o braço erguido através de intensos movimentos repetitivos no tic tac das tesouras por semanas a fio, embora as tesouras elétricas já tenham diminuído bastante este esforço.

Fico imaginando como nossos nonos e bisnonos conviviam com a dor nas costas. Na época da colheita com cestas de vimes ou com barris (dornas, para os íntimos), a dor não era opcional. Ela estava ali, todo o dia. Em toda a atividade. A clássica imagem do agricultor caminhando pela cidade com a coluna arqueada ainda hoje permeia o imaginário de muita gente. Parece uma cena tão distante, mas que em termos de tempo, ainda está muito presente. Quando penso nisso, sempre me lembro de uma frase de meu

pai, na primeira safra de uva colhida com bins. Em bom talian, que aqui vai ser traduzida direto para o português, recordou com um misto de saudosismo e alívio: “Meu Deus. Quanta dor nas costas seria evitada se tivessem inventado isso há trinta anos”.

Felizmente, a tecnologia chegou a tempo. Para tristeza de muitas massagistas.

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