Por João Paulo Deluca| Historiador, radialista e colono de apartamento
Sobre batatas e brodos
O papo sobre polenta na última coluna me deu fome, e despertou também algumas lembranças das comidas de infância. O prato da polenta e café com leite feita pelo meu pai após aquela bela brustolada na chapa me trouxe à memória o cheiro da casquinha da polenta queimada sobre o fogão a lenha, o aroma do café passando no coador aguardando a mistura com o leite recém tirado daquela vaca holandesa. E me fez lembrar também como somos criativos ao criar nossos próprios pratos.
O colono parece ter uma maior “liberdade criativa” na hora de montar os seus alimentos. Com o que tem à disposição, faz a sua mistura e bola o prato mais delicioso do mundo. O interessante também é ver o quanto, na nossa infância, os pratos mais simples são os mais saborosos, com sabor único de casa.
Quando criança, o domingo pela manhã tinha um roteiro sagrado: acordávamos ao natural, primeiramente um pouco sonâmbulos com o canto dos galos que dormiam na árvore ao lado da minha janela. No entanto, o que nos despertava pra valer era ouvir o Marasca na Rádio Garibaldi. Entre “La Verginela”, “El Vin Lé Bon” e “Ricordarse Dei Nostri Bisnoni”, chegavam aquelas piadas sagazes que nós crianças às vezes não entendíamos e só viríamos a compreender anos mais tarde. Pobres inocentes. Mas não havia muito tempo para o Marasca. Ele era uma espécie de introdução à verdadeira e sagrada rotina do domingo pela manhã: ir à missa. Enquanto nos arrumávamos, o pai ligava e esquentava o dramático Gol a álcool. E lá partíamos nós.
Bom, todo esse roteiro nos traz agora ao tema da gastronomia. Tão sagrado quanto ir à missa, era voltar e logo depois ir até a casa da nona, que ficava próxima. Enquanto na TV, Airton Senna, Nigel Mansel e Alain Prost disputavam as primeiras colocações nas corridas de Fórmula 1 na TV, a nona preparava o prato clássico das 10h da manhã para os netos. Pegava o pão colonial feito no sábado, o fatiava de forma bem fininha e posicionava as fatias uma sobre a outra no prato de porcelana. Depois, vinha o gran finale: ia até o fogão a lenha fumegante (ornamentado com as batatas-doces e pinhões) e despejava conchas e conchas de brodo da sopa de capeletti que estava sendo preparada e saborizada com uma galinha velha. A finalização vinha com o queijo ralado, produzido, claro, na própria casa. O nome desse prato tão simples e tão saboroso? Sopa da Missa. Sim, a Sopa da Missa não podia ser servida em nenhum outro momento, senão não seria Sopa da Missa. Seria Sopa da Terça, Sopa da Quinta, Sopa do Fim da Tarde… Mas da Missa, só nos domingos, às 10h.
Nas noites durante a semana, quando a mãe percebia que a rotina de trabalho tinha sido mais puxada e os homens da casa voltariam, digamos, mais famintos do que o normal, o café com leite não era suficiente. Vinha então o prato secreto: ia até o porão, cheio de batatas que foram colhidas há poucas semanas e as preparava numa fórmula que envolvia tomate, colorau e outras coisas que até hoje não descobri. O nome que dei para este prato? Batata Amarela. Simples, mas indescritivelmente saboroso. Torcíamos para ser a noite do pão fresco. Se naquela tarde a mãe tivesse preparado a fornada de pão quinzenal, o acompanhamento perfeito (e quentinho) da Batata Amarela estava pronto.
Ok, é um festival de carboidratos, mas caramba, quem liga para carboidratos aos 10 anos, e diante de uma panela fumegante de Batata Amarela?
Como eu disse, cada um bola e cria o seu prato. A minha namorada Andréia, ao ler sobre a polenta com café e leite do meu pai, lembrou que a sua Nona Hortenila preparava para os netos batatinhas cozidas em molho no fogão e amassadas numa xícara. Acho que poderia batizar esse prato de Batata Amarela de Caneca. Vou testar.
É interessante também de vermos como esses pratos, quando consumidos na nossa rotina, passam quase desapercebidos. Degustá-los parece quase uma rotina protocolar, monótona. Só depois que crescemos, nos distanciamos de algumas memórias e sentimos falta da rotina infantil, é que percebemos o quanto esses pratos fazem falta para nós. Não apenas para alimentar o estômago, mas sim para alimentar nossa alma e nossa mente com as memórias de infância.
Por isso, aproveite e siga “criando” os seus pratos de infância enquanto há tempo. Eu, por exemplo, poderia agora comprar um pão colonial, fatiá-lo e colocar por cima dele um brodo que sei fazer. Mas faltariam o Senna, o Mansel, o Prost e a nona.



