Por João Paulo Deluca| Historiador, radialista e colono de apartamento
Meu amigo, o fogão a lenha – Parte 1
Existem alguns elementos que são difíceis de desassociar de um colono. Ferramentas, utensílios, chapéus, etc, fazem parte da indumentária e da figura de homens e mulheres do interior. Porém, dentro de casa, nada identifica mais a vida na colônia do que um belo fogão a lenha. Esse instrumento se torna quase que uma figura decorativa da casa, sendo fundamental para a vida do colono, acompanhando-o fielmente por gerações e gerações. São quase um elemento só: a nona e o fogão, vivendo por décadas, lado a lado, desde a madrugada até o pós janta.
Uma das lembranças mais marcantes que tenho da casa da minha nona é o fogão a lenha. Vários elementos contribuem para isso. Comecemos pelo chão: no antigo assoalho, todo formado por tábuas largas de madeira, existiam marcas de queimado, que só fui descobrir o que eram quando comecei a ter compreensão maior do cotidiano e da rotina da casa. Aquelas marcas, que soavam quase como tatuagens no piso, carimbos nas tábuas de alguma araucária centenária, eram brasas que caíam do fogão a lenha.
Aquilo, entretanto, tinham uma história muito mais longeva. Quem as provocava era minha bisavó Angélia, a qual sequer cheguei a conhecer, pois partiu quase vinte anos antes de eu nascer. Nos anos 60, sem motosserras e com machados limitados, metros inteiros de lenha eram empurrados pela boca do fogão, e apoiados numa cadeira.
Eventualmente, enquanto se saía de casa para alguma outra atividade nos arredores, às vezes se esquecia aquele pedaço de madeira por lá, e o restante, após ser consumido pelo fogo, caía pelo chão de madeira, provocando um pequeno princípio de incêndio que só era controlado no retorno à casa da responsável pela lenha. Isso explica, basicamente, porque as antigas casas do interior eram construídas com a cozinha separada dos quartos. Basicamente, se um toco de lenha incendiário provocasse chamas intensas, consumiria apenas esta peça.
Mas felizmente, na casa da minha avó o assoalho sobreviveu, embora com cicatrizes definitivas. Aí entram outros elementos de memória afetiva. Chegava para meu ritual de café da manhã todos os dias (como já relatei aqui em outra coluna) e, de abril até setembro, meses mais frios, sentava não numa cadeira, mas sim numa banca posicionada estrategicamente num vão que ficava entre o fogão a lenha e a parede. Na verdade, sequer era uma banca: era a máquina de fazer massa (ou biguli, para ser mais preciso), que enquanto não era utilizada, servia como apoio para os netos da Nona Maria degustarem seu café. A xícara era colocada sobre a tampa do tanquinho, que os antigos fogões a lenha tinham, e era utilizada para esquentar água. Na minha época, o tanquinho já era um item decorativo: a água já borbulhava em chaleiras com tampas vermelhas e de inox, sempre brilhantes, graças ao trabalho incessante de minha tia, minha vó, e claro, o Sapólio.
Degustado o café, no meio da manhã, já surgia outro aroma no ar, denunciando: as batatas-doces que estavam dentro do forninho começavam a ficar prontas. A regra para saber em que momento elas sairiam do forno era muito simples: se a casca estava solta, batata pronta. Aliás, eis aí, talvez, a grande utilidade do forninho do fogão a lenha: assar batata-doce. Eventualmente, ele também poderia ser utilizado para “secar” uma lenha meio úmida, ou em casos mais remotos, cumprir efetivamente a sua função: ser um forno. Sobre o fogão a lenha, além das chaleiras fumegantes que já mencionei, em épocas de inverno pairava uma panela com pinhões, sempre colhidos no dia. Era preciso buscá-los cedo, embaixo das araucárias (ou pra nós, simplesmente pinheiros), travando uma corrida contra o tempo, antes da chegada das vacas, que preferiam a energia e o sabor de bons pinhões ao invés do pasto seco e queimado pela geada. De vez em quando, quase que por diversão, um punhado deles era jogado sobre a chapa. E aí observávamos a dança frenética deles sobre aquele metal escaldante, até a confirmação do cozimento, a abertura com uma faquinha de serra e a degustação da “pinholada”, quase que como um bom aperitivo.
Vejam que todo esse ritual do fogão a lenha chegou apenas até a metade da manhã. Sequer mencionei aqui a hora do almoço. E almoço no fogão a lenha, inevitavelmente, lembra polenta. Mas essa história eu conto semana que vem. Até porque agora é hora de preparar uma panela de pinhões. Na panela de pressão…
São outros tempos.



