Por Flávio Green Koff | Advogado com pós-graduação Lato Sensu em Gerente de Cidade – “City Manager”, pela Fundação Armando Álvares Penteado, concluída em 2002.
Gosto de todas, mas simpatizo com mais fervor a GRES, (é a sigla para Grêmio Recreativo Escola de Samba), Beija-Flor de Nilópolis, fundada em 1948, é uma das mais tradicionais escolas de samba do Rio de Janeiro, com sede na Baixada Fluminense (Rua Pracinha Wallace Paes Leme, 1025). Conhecida pelas cores azul e branco, é uma potência no Carnaval com 15 títulos, sendo a campeã de 2025 com o enredo sobre Laíla.
Há uma noite em que o Rio de Janeiro deixa de ser apenas cidade e se converte em verso. Nessa noite, a Avenida transforma-se em livro aberto, e cada passo é sílaba viva; cada batida, pontuação do coração coletivo. O Carnaval carioca, no ápice do Grupo Especial, apresenta-se como obra total: poesia em movimento, história cantada, amor que se escreve com o corpo inteiro.
Vê-se ali o Brasil narrando a si mesmo. As escolas, como autores de um mesmo romance, desfilam capítulos distintos de uma memória comum. O samba enredo, rigoroso e lírico, costura passado e presente com a delicadeza de quem conhece a dor e celebra a esperança. Nas alegorias, a imaginação ergue pontes entre eras; nas fantasias, o detalhe minucioso revela o cuidado de mãos anônimas que trabalharam meses para um instante de eternidade.
Nada é improviso onde reina a arte. Há disciplina no brilho, método no sonho, estudo na emoção. A bateria não apenas marca o tempo: educa o ouvido, convoca o corpo, unifica vontades. Cada ala caminha como verso metrificado; cada evolução respeita a gramática invisível do espetáculo. O resultado é uma linguagem própria, brasileira, que ensina sem pregar e encanta sem pedir licença.
E há, sobretudo, a união. A comunidade inteira se reconhece naquele percurso breve e definitivo. O esforço coletivo — do barracão à avenida — converte cansaço em beleza, silêncio em canto, anonimato em pertencimento. Quando o portão se abre, não desfilam indivíduos: desfila um povo reconciliado com sua potência criadora.
Ao final, a avenida silencia por um segundo que parece eterno. Resta no ar a certeza de que a poesia também sabe sambar; de que a história pode ser cantada; de que o amor, quando organizado em ritmo, cor e dedicação, torna-se espetáculo e patrimônio. Assim, o Carnaval carioca confirma, ano após ano, que a arte brasileira encontra no samba sua forma mais luminosa de dizer quem é.


