Por Frei Aldo Colombo
O poeta Rabindranath Tagore, numa história inesquecível, narra o encontro de um mendigo com o rei. Peregrinando pelas empoeiradas estradas da Índia, o velho mendigo batia de porta em porta, pedindo qualquer coisa. Pouca coisa recebia até mesmo porque a miséria era muito grande e atingia a todos. A tarde já ia adiantada e ele recebera apenas um punhado de trigo. A paisagem animou-se quando, no horizonte, apareceu uma imponente carruagem. Puxada por garbosos cavalos, ela conduzia o próprio rei. E a carruagem parou junto ao mendigo.
É meu dia de sorte, pensou ele, imaginando sonantes moedas de ouro que receberia do rei. Descendo da carruagem, o rei estendeu a mão, pedindo alguma coisa. Confuso, o mendigo olhou para o fundo de seu bornal, colheu alguns grãos e depositou-os nas mãos do rei. O rei agradeceu, voltou à sua carruagem e desapareceu nas curvas do caminho. O mendigo continuou sua penosa caminhada sem nada entender. Antes de deitar, depois de ter comido um pedaço de pão duro e bebido água de uma fonte, o mendigo despejou as reduzidas esmolas do dia. E, surpreso, notou que entre os grãos de trigo estavam alguns grãos de ouro. Eram os pobres grãos de trigo que ele dera ao rei. Tardiamente arrependido, lamentou-se: porque não tive coragem de dar tudo!
Esta história é uma versão de um fato real, narrado no Evangelho. O Filho de Deus veio ao nosso encontro e abriu as mãos para receber o pouco de nossa pequenez. Contrariamente a uma humanidade egoísta e mesquinha, o Pai nos deu seu Filho único. O evangelista João resume o fato: de sua plenitude, nós recebemos graça sobre graça. E Santo Agostinho complementa: Ele se fez homem para que nós nos tornássemos deuses.
Este rei continua passando pelos nossos caminhos e sua estratégia é sempre a mesma. Ele abre as mãos para acolher os grãos de nossa pobreza e miséria par, depois, a transformá-lo em ouro.
Esta história que os pais, há dois mil anos, contam a seus filhos. O pedido do rei é sempre o mesmo. Cada um de nós responde do seu jeito. Este é um encontro marcado. E por isso não mais temos razões para temer. Continuamos amados pelo Rei e se não somos mais felizes é porque não temos a coragem de dar tudo.


